A Atualidade de Marx, por Gleisi Hoffmann

“Marx sempre será atual e necessário, enquanto o capitalismo perdurar.” Leia artigo da presidenta nacional do PT, Gleisi Hoffmann, sobre a atualidade do pensamento de Karl Marx (05/05/1818 – 14/03/1883).

O economista e senador Lauro Campos, grande especialista na obra de Marx, a qual conhecia em profundidade, costumava contar, em tom jocoso, sobre o caráter sempre recorrente do uso do pensamento marxista.

Dizia ele que, nos tempos de bonança e tranquilidade, ao visitar universidades britânicas ou norte-americanas, via pouca gente lendo ou debatendo Marx. Porém, observava, sempre que havia uma crise notava que “todo o mundo começava a andar com O Capital debaixo do braço”.

Essa anedota simples, porém verdadeira, demonstra a força incontestável do pensamento marxista. O pensamento econômico conservador e ortodoxo simplesmente não consegue oferecer uma explicação sólida e consistente para as crises recorrentes, com frequência graves, que o capitalismo sofre.

O pressuposto do pensamento conservador clássico ou neoliberal é que o sistema, o mercado, tendem naturalmente ao equilíbrio e à harmonia. Os desequilíbrios e os conflitos surgem de intervenções indevidas do Estado na economia, da ação de sindicatos de trabalhadores e de outros fatores externos ao seu livre funcionamento. A “mão invisível” é, necessariamente, a única forma de corrigir desequilíbrios e conflitos eventuais. Desequilíbrios e conflitos esses que não fazem parte da dinâmica intrínseca do sistema capitalista.

Nesse arraigado de crenças, reproduzido sistematicamente pelos aparelhos culturais do sistema, escolas, universidades, mídia etc., até mesmo as desigualdades não são vistas como problemas, mas sim como incentivos naturais ao bom funcionamento da economia, a qual tende a distribuir benesses e progressos pelo “gotejamento” das riquezas para o resto da sociedade. A desigualdade, nessa visão distorcida, é um simples resultado da meritocracia, que recompensa os indivíduos mais esforçados, inteligentes e de maior iniciativa.

Mas, mesmo as versões heterodoxas da interpretação do capitalismo, como a keynesiana, por exemplo, também não oferecem uma explicação aprofundada e bem embasada dos desequilíbrios intrínsecos da acumulação capitalista, embora, nesse caso específico, ofereça, sim, políticas bem mais eficientes e realistas para as superações das crises, as chamadas políticas anticíclicas, que colocam o papel do Estado como fundamental para corrigir os desequilíbrios gerados na crise.

Assim, somente a teoria marxista, em suas variantes, fornece uma explicação realmente consistente dos conflitos e das crises capitalistas. Para Marx, a acumulação capitalista tende inexoravelmente ao desequilíbrio, gera suas próprias contradições intrínsecas.

A acumulação capitalista, pelo aumento do capital constante (máquinas, instalações, insumos etc.) em relação ao capital variável (a força de trabalho), que Marx denominava de mudança da composição orgânica do capital, tende à diminuição das taxas de lucros. Tal diminuição provoca uma corrida pelo aumento da produtividade e pela superexploração do trabalho. Mais mercadorias precisam ser produzidas com o mesmo trabalho. Mas isso, por sua vez, aumenta a composição orgânica do capital, levando a novo decréscimo das taxas de lucro. Trata-se, assim, de um trabalho de Sísifo, que nunca atinge seu objetivo. O capitalista está fadado a sempre aumentar sua produtividade e a explorar cada vez mais a força de trabalho para conter esse desequilíbrio intrínseco.

Como assinala Marx no livro I de O Capital:

Os períodos em que a acumulação atua como mera expansão da produção sobre uma base técnica dada tornam-se cada vez mais curtos. Requer-se uma acumulação acelerada do capital global em progressão crescente para absorver um número adicional de trabalhadores de certa grandeza, ou mesmo por causa da constante metamorfose do capital antigo, para ocupar os já em funcionamento. Por sua vez, essa acumulação crescente e a centralização se convertem numa fonte de nova mudança da composição do capital ou reiterado decréscimo acelerado de sua componente variável comparada com a constante.

O Capital, livro I, de Karl Marx, lançado originalmente em 1867 na Alemanha, trata sobre o processo de produção do capital. Único volume lançado em vida, as demais obras que integram o conjunto de livros d’O Capital foram lançados após a morte do autor em 1883. O processo de circulação do capital – livro II em 1885, e O processo global da produção capitalista – livro III em 1894. (N.E.)

Além dessa tendência de decréscimo das taxas de lucro há também o desequilíbrio da superprodução. A corrida pela produtividade, que diminui o número de trabalhadores necessários para fabricar a mesma quantidade de mercadorias, e a exploração relativa da mão-de-obra crescem tanto que as mercadorias produzidas não conseguem ser consumidas, em sua totalidade, pelos assalariados. A resposta usual a esse desequilíbrio é a conquista de novos mercados, com a crescente globalização da produção e do consumo. E também a busca por uma força de trabalho mais barata, que permita reduzir os custos de produção das mercadorias e torná-las mais acessíveis aos consumidores. O deslocamento da produção industrial dos EUA e da Europa para a Ásia, especialmente para China, obedece a essa necessidade.

No Manifesto Comunista, Marx e Engels descrevem tal processo da seguinte forma:

As relações burguesas de produção e de troca, o regime burguês de propriedade, a sociedade burguesa moderna, que conjurou gigantescos meios de produção e de troca, assemelham-se ao feiticeiro que já não pode controlar as potências infernais que pôs em movimento com suas palavras mágicas. Há dezenas de anos, a história da indústria e do comércio não é senão a história da revolta das forças produtivas modernas contra as modernas relações de produção e de propriedade que condicionam a existência da burguesia e seu domínio. Basta mencionar as crises comerciais que, repetindo-se periodicamente, ameaçam cada vez mais a existência da sociedade burguesa. Cada crise destrói regularmente não só uma grande massa de produtos já fabricados, mas também uma grande parte das próprias forças produtivas já desenvolvidas. Uma epidemia, que em qualquer outra época teria parecido um paradoxo, desaba sobre a sociedade – a epidemia da superprodução. Subitamente, a sociedade vê-se reconduzida a um estado de barbárie momentânea; dir-se-ia que a fome ou uma guerra de extermínio cortaram-lhe todos os meios de subsistência; a indústria e o comércio parecem aniquilados. E por quê? Porque a sociedade possui demasiada civilização, demasiados meios de subsistência, demasiada indústria, demasiado comércio. As forças produtivas de que dispõe não mais favorecem o desenvolvimento das relações de propriedade burguesa; pelo contrário, tornaram-se por demais poderosas para essas condições, que passam a entravá-las; e todas as vezes que as forças produtivas sociais se libertam desses entraves, precipitam na desordem a sociedade inteira e ameaçam a existência da propriedade burguesa. O sistema burguês tornou-se demasiado estreito para conter as riquezas criadas em seu seio. De que maneira consegue a burguesia vencer essas crises? De um lado, pela destruição violenta de grande quantidade de forças produtivas; de outro lado, pela conquista de novos mercados e pela exploração mais intensa dos antigos. A que isso leva? Ao preparo de crises mais extensas e mais destruidoras e à diminuição dos meios de evitá-las.

O Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels, lançado originalmente de forma panfletária em fevereiro de 1848, em Londres. (N.E.)

Desse modo, as crises capitalistas não são apenas inevitáveis, mas também necessárias para depurar a acumulação capitalista. Ressalte-se que essa destruição violenta das forças produtivas que não mais geram lucro pode também ser obtida pelas guerras, que eliminam uma quantidade enorme de patrimônio, que terá de ser reconstruído.

No campo social, a consequência também inevitável dessas tendências da acumulação capitalista é o aumento das desigualdades e do acúmulo crescente das riquezas e do patrimônio.

É claro que Marx sempre falava de grandes tendências de longo prazo. Houve períodos em que a acumulação capitalista distribuiu renda. Foi o caso, por exemplo, da Europa após a Segunda Guerra Mundial. A destruição causada pelo conflito bélico, adicionada às políticas distributivas da socialdemocracia, em parte suscitadas como resposta ao avanço do socialismo real, originou um novo ciclo de crescimento, no qual o aumento da renda dos trabalhadores foi crucial. Outro exemplo que pode ser dado foi o Brasil dos governos Lula e Dilma.

Entretanto, na Europa, já a partir de meados da década de 1970, com a crescente queda das taxas de lucros, esse modelo social democrata foi substituído pela barbárie neoliberal, que soltou as amarras de um capitalismo crescentemente desregulado, globalizado, financeirizado e concentrador.

O resultado desse novo ciclo, como bem apontam Thomas Piketty e outros, foi o aumento brutal da desigualdade. Hoje, o capitalismo tem os mesmos níveis de desigualdade de renda e patrimônio que predominavam no início do século XX. Uma regressão substancial, que ameaça até as próprias democracias. Outro resultado foi a crise atual, a pior desde 1929. Uma crise extensa, mundial, profunda e de longa duração, que não dá mostras de ceder. A atualidade do pensamento de Marx, portanto, não diz apenas respeito sua capacidade única de explicar os desequilíbrios e a crises inerentes à acumulação capitalista. Na realidade, a atualidade do pensamento de Marx se revela justamente no fato de que hoje o capitalismo se parece cada vez mais como Marx o descreveu no século XIX.

Como bem assinala Slavoj Žižek, é agora que Marx atingiu uma plena atualidade:

Afirmemos não apenas que ainda hoje a crítica da economia política de Marx, seu raio x das dinâmicas do capital, permanece totalmente atual, mas mais do que isso, afirmemos que é apenas hoje, com o capitalismo global, que Marx atingiu sua plena atualidade. Ou, para falar em “hegelianês”, apenas hoje a realidade atingiu seu conceito.

ŽIŽEK, Slavoj. A atualidade de Marx. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2018/05/04/zizek-a-atualidade-de-marx/

De fato, não apenas a explicação marxista da acumulação capitalista é cada vez mais atual, como o capitalismo globalizado e financeirizado, que destrói todas as outras formas de produção, é a grande profecia de Marx que se cumpriu integralmente.

Assim, nunca Marx foi tão atual como hoje, tanto em termos intelectuais como políticos.

É simplesmente impossível entender o que acontece no mundo atual sem o auxílio de Marx. Muitos tentam desacreditá-lo apelando para os golpes baixos de erros e excessos de socialismo real, sem colocá-los em perspectiva histórica. Ora, isso é a mesma coisa que dizer que Cristo foi responsável pela Inquisição Espanhola ou que Adam Smith é o responsável pelas misérias e as inúmeras mortes causadas pelo capitalismo.

Tudo isso não quer dizer, contudo, que estejamos necessariamente próximos de uma superação do capitalismo, como sonhava Marx. Afinal, o capitalismo deu mostras, uma e outra vez, de ter capacidade, encerradas as crises destrutivas e depuradoras, de retomar novos ciclos de crescimento.

A principal crítica de Marx ao capitalismo tange à sua incompatibilidade com a humanidade e seu desenvolvimento. Como bem argumentou Yanis Varoufakis em seu belo artigo sobre os 200 anos do Manifesto Comunista:

O Manifesto argumenta que o problema com o capitalismo não é que ele produz muita tecnologia, ou que é injusto. O problema do capitalismo é que ele é irracional. O sucesso do Capital em espalhar seu alcance via a acumulação pela acumulação está fazendo com que trabalhadores humanos trabalhem como máquinas por uma ninharia, enquanto os robôs são programados para produzir coisas que os trabalhadores não podem mais pagar e os robôs não precisam. O Capital falha em fazer uso racional das máquinas brilhantes que ele engendra, condenando gerações inteiras à privação, a um ambiente decrépito, ao subemprego, ao lazer zero e à busca incessante do emprego e da sobrevivência em geral. Até mesmo os capitalistas são transformados em autômatos angustiados. Vivem em permanente temor de que, a menos que mercantilizem seus companheiros humanos, deixarão de ser capitalistas – unindo-se às fileiras desoladas do proletariado precário em expansão

Tradução da introdução escrita por Yanis Varoufakis ao Manifesto Comunista publicada no The Guardian <https://www.theguardian.com/news/2018/apr/20/yanis-varoufakis-marx-crisis-communist-manifesto&gt;. Tradução de Antonio Martins disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/578705-por-que-marx-no-seculo-21&gt; (N.E.)

A grande força do pensamento marxista, que foi aprimorada e reforçada pela Teoria Crítica da Sociedade, desenvolvida pela mal denominada Escola de Frankfurt (Theodor Adorno, Max Horkheimer e Herbert Marcuse, principalmente), reside justamente nessa condenação da irracionalidade do capital, que significa, na realidade, sua desumanidade intrínseca. A escravização de todos nós (e do meio ambiente) às suas engrenagens cruéis e incessantes.

Assim, Marx sempre será atual e necessário, enquanto o capitalismo perdurar.

Voltando à anedota contada por Lauro Campos, precisamos não apenas andar com O Capital debaixo do braço, mas, fundamentalmente, percorrer nossos caminhos na sociedade com a crítica de Marx em nossas cabeças e nossos corações.

  • Artigo publicado em O socialismo nas Resoluções de Encontros e Congressos do Partido dos Trabalhadores. – São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2018 – (Cadernos Perseu. Memória & História ; 3) – ISBN 978-85-5708-098-0 – pp. 11-16. Para ler o livro, clique aqui.
  • Acompanhe as Jornadas da Fundação Perseu Abramo sobre o Socialismo no século 21: clique aqui.

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